quarta-feira, 6 de abril de 2011

Entrevistas com o casal Wilmar e Lyra Gil


Filho de Olinda Bier Gil e José Martins Gil, foi o seu José Wilmar quem me concedeu a
honra de sua entrevista. Hoje com 78 anos, ele ainda mora com sua esposa Lyra de Medeiros Gil,
em Catanduvinha. Dona Lyra, filha de Alcides Barth de Medeiros e Luiza Boges Lima, também não
se negou a me dar uma entrevista, em sua residência fui muito bem recebida. Seu sítio tem o nome
dos pais de seu Wilmar e eles me contaram muitas histórias de sua infância e de sua vivência.
Pude perceber que eles são uma família muito unida, que mantêm laços muito fortes de
amor e companheirismo. Na terceira idade, são um casal unidos pelo verdadeiro amor! Ambos vêm
de famílias muito importantes para a comunidade, seus pais eram empreendedores e eles mantêm
esse espírito etá hoje!
Seguem as entrevistas:

terça-feira, 5 de abril de 2011

Catanduvinha... minha comunidade!

Minha busca pela história da minha comunidade foi fantástica, pude descobrir muitas coisas
interessantes, das quais eu nem fazia ideia! As informações que encontrei são mais ou menos a
partir de 1930, e me surpreendi com o número de pessoas empreendedoras que já havia naquela
época na comunidade!
A comunidade não era muito grande, e era principalmente movida por atividades rurais, as
pessoas viviam da “terra”, cultivavam e plantavam para a sobrevivência e até comercializavam
alimentos produzidos como milho, mandioca, arroz... havia criadores de gado, e muitos dos
chamados “cambistas”, que faziam troca de gado e outras mercadorias. As pessoas eram muito
trabalhadoras e principalmente batalhadoras, a vida não era muito fácil, mas elas se viravam como
podiam e inovavam em muitos aspectos! Não havia energia elétrica, água encanada e basicamente
nenhum aparelho tecnológico. Rádio e TV vieram aparecer bem mais tarde, os meios de transporte
eram as carretas de boi, as carroças e o cavalo, o primeiro carro que surgiu na comunidade foi uma
grande festa e era uma novidade!
Havia na época, armazéns onde se vendia de tudo um pouco. Eram chamados “armazéns de
secos e molhados”, lá as pessoas podiam comprar, vender e até mesmo trocar mercadorias, que era a
prática mais comum. Funcionava da seguinte maneira: o agricultor cultivava algum tipo de
alimento, levava-o até o armazém e lá trocava o seu milho, por exemplo, por arroz, feijão, farinha,
entre outros. Era a forma mais comum de sobrevivência. Em alguns desses armazéns havia até
mesmo tecidos e roupas prontas! Outros, além de tudo isso ainda funcionavam como funerárias,
onde eram feitos caixões e até as roupas do defunto. Faziam de tudo um pouco para dar conta de
sustentar a família.
As dificuldades para estudar também eram muitas, desde pequenas as crianças já
trabalhavam no pesado, o tempo e as oportunidades de um aprendizado eram pequenos, mas as
pessoas não deixavam passar a oportunidade e a grande maioria lutava para adquirir o minimo que
fosse de conhecimento. Em 1930 não havia ainda escola na comunidade, mais tarde foram surgindo
algumas salas de aula, algumas professoras, mas eles enfrentavam muitas dificuldades, já que o
estado não enviava professores suficientes e nem um local adequado para a realização das aulas!
Havia uma rixa entre duas famílias importantes da localidade. De um lado José Pereira da
Rocha e sua esposa Maria Pereira, que queria colocar o nome da localidade de Miraguaia, já o
senhor José Peixoto queria chamar a localidade de Catanduvinha. Dona Maria Pereira era de
descendência alemã e isso fez com que ela “perdesse” a rixa, já que na época os alemães eram
ameaçados pelo governo devido à guerra e não podia haver pessoas no Brasil que falassem em
alemão. Como o senhor José Peixoto ameaçou denunciá-la, o nome da comunidade ficou como
Catanduvinha mesmo.
Hoje a comunidade ainda é pequena, mas já possui praticamente todos os recursos básicos
necessários. Talvez não tenha se desenvolvido mais devido à falta de pessoas com o mesmo espírito
empreendedor. Hoje muitas pessoas vão trabalhar fora, já que a forma de trabalho se baseia
atualmente em fábricas de rapadura, alguns, muito poucos, ainda vivem de algum tipo de
agricultura, mas em geral essas pessoas são mais velhas e já viveram assim a vida toda. Mas é muito
comum encontrar pessoas na lida do campo, com animais, e atividades rurais mesmo em tempos de
atuais!

José Pereira da Rocha



Dona Elsa é filha de José Pereira da Rocha e me concedeu a entrevista sobre seu pai.

Em minha pesquisa pela história da Comunidade de Catanduvinha, comparei-me
com um nome que foi a peça-chave para o desenvolvimento da comunidade: José Pereira
da Rocha, mais conhecido como Zeca Pereira.
Tive o privilégio de conversar com sua filha, Elsa Borges Lima que passou toda a
sua vida nesse lugar e me contou muitas coisas a respeito se seu pai, José Pereira da
Rocha. A dona Elsa se encontra hoje lúcida já com 92 anos, tivemos um feliz e agradável
encontro onde ela me relatou fatos interessantes a respeito do desenvolvimento da
comunidade.
A comunidade de Catanduvinha localiza-se no interior de Santo Antônio da
Patrulha, há 15 quilômetros da cidade, caracteriza-se por ser um lugar calmo, com muito
campo, que baseia suas atividades econômicas em lida com gado, plantações, produção
de leite, fabricação de rapadura, enfim, atividades típicas rurais.
José Pereira da Rocha se destaca pelo fato de estar envolvido em muitas
atividades que proporcionaram o progresso da comunidade. Teve uma família grande,
com 10 filhos, era querido e bem visto por todos.
Em 1930 ele já possuía espírito empreendedor, visava o bem e o desenvolvimento
de sua comunidade. Foi um grande produtor de arroz, desde a plantação até a condição
de consumo era tudo feito em seu moinho aqui em Catanduvinha mesmo, produzia
também farinha de milho, tinha um armazém de secos e molhados em geral, criava gado,
tinha uma serraria para trabalhar a madeira, um caminhão para transporte de seus
produtos e também da madeira produzida. O primeiro rádio, a primeira televisão, o
primeiro poço artesiano que puxava água manualmente eram de José Pereira da Rocha.
Foi ele também quem teve o primeiro gerador de luz elétrica movido à óleo. E o que dizer
de um carro de luxo da época, o aero willys foi um sucesso na comunidade e pertencia ao
seu Zeca Pereira.
José Pereira da Rocha não possuía simplesmente tudo isso só pra ele e sua
família, e é aqui onde entra o seu papel no crescimento da comunidade.
Em seu moinho de arroz e de milho, ele também preparava o arroz e a farinha de
produtores menores da redondeza, eles traziam o arroz colhido e trocavam por arroz
pronto para o consumo, ou até mesmo por outros alimentos que ele comercializava em
seu armazém. Gerava muitos empregos por ter várias atividades econômicas. Ninguém
vinha até o armazém sem levar nada para casa, se não tinha dinheiro trocava por outros
produtos ou até por trabalho. Era dono de muitas terras e as emprestava para as pessoas
plantarem sem cobrar nada por isso, emprestava também seu próprio gado e materiais
como arado, para cultivar a terra e deixá-la própria para o consumo. Em sua própria
casa tinha uma sala especial, com 8 camas para hospedar os viajantes que passavam
pela comunidade para realizar negócios. Era muito católico, chegou a ler a bíblia duas
vezes, era muito comum encontrá-lo estudando a Bíblia. Ele também sonhava em dar
estudos a seus filhos, e foi dele que partiu a ideia de contratar professores que vinham de
Porto Alegre para lecionar para todas as crianças da comunidade.
Os professores se hospedavam em sua casa e ele pagava todas as despesas,
porque sabia da falta que a educação faria para o desenvolvimento de seu lugar e queria
que todas as crianças tivessem acesso ao ensino. Mais tarde, o estado pagava as
professoras e alugou um galpão velho de se Zeca Pereira como “escola”. O aluguel era
bem baixo e levava muito tempo a receber, quando conseguia.
Pensava pra frente, no desenvolvimento da sociedade. Tinha uma boa visão de
futuro e sabia que precisava fazer algo para que as coisas mudassem de rumo. Doou um
terreno para a construção da igreja e um também para a construção da escola.
Teve uma família grande, com 10 filhos, gerou muitos empregos na comunidade.
Inclusive foi o seu Zeca Pereira que contratou como professora de seus filhos Olinda Bier
Gil.
Hoje a escola tem o seu nome, já que foi ele o maior interessado em trazer
educação básica para sua comunidade.


Rosa e Elsa, neta e filha de Zeca Pereira

Maria e José Pereira da Rocha

Na escola há uma sala em homenagem a José Pereira da Rocha

Foto, Bíblia e lupa que perteciam a José Pereira da Rocha.

A escola de Catanduvinha tem o seu nome

A escola hoje.

 

José Martins Gil e Olinda Bier Gil

Olinda Gil foi uma grande colaboradora para o desenvolvimento e crescimento da
comunidade. Foi a primeira professora a lecionar em Catanduvinha, vinha de Santo Antônio da
Patrulha e passava a semana toda na comunidade, na casa de José Pereira da Rocha, que foi
inicialmente quem a contratou para que ela lecionasse para seus filhos e para outras crianças da
redondeza.
Em 25 de junho de 1928, Olinda casou-se com um rapaz que morava na Catanduvinha e eles
moravam ali mesmo.
Ele, José Martins Gil, com seus quarenta anos, conhecido por todos como Tio Juca Martins,
era analfabeto, apenas assinava seu nome, mas era muito inteligente, fazia câmbios como ele só.
Seus negócios eram com prazo de até um ano. Cambiava gado, comprava um pedaço de terra aqui e
ali e dessa forma foi formando seu patrimônio. Era uma época bem diferente de nossos tempos, os
pais se preocupavam em deixar terras para os seus filhos como herança.
Ela, jovem, veio apenas para dar aula aos filhos de José Pereira da Rocha, mas logo se
familiarizou, gostou e se apaixonou por essa terra. Após seu casamento continuou lecionando em
sua residência por algum tempo, mas como o marido não achava conveniente, parou de dar aula,
embora contra sua vontade, já que era apaixonada por seu trabalho. Mulher guerreira, passou a ser
dona de casa, costureira e administradora de outros afazeres da família no interior. Para a alegria do
lar os filhos foram chegando. Em primeiro lugar, nasceu Jacob Ernane, o segundo foi José Wilmar,
o terceiro João Abelar e o quarto e último filho foi Flávio Francisco.
Olinda Gil foi uma grande mulher, sofreu muito tempo por não poder lecionar, mas nunca
deixou de envolver-se com as atividades da comunidade. Ela e seu esposo empenharam-se muito
para a construção da igreja. Ela sempre educou seus filhos com muito amor, que era o tempero
chave em tudo o que ela fazia. Os filhos cresceram num clima de união e amor. Mas não tinham
moleza e trabalhavam desde pequenos, o tempo para ir à escola era contado no relógio, e não
sobrava muito tempo para brincar, mesmo assim eles conseguiam fazer suas peraltices.
Hoje Dona Olinda e Seu José são falecidos, mas muito lembrados pela comunidade por seu
papel tão importante e suas vidas dedicadas ao próximo e em fazer o bem.

Alcides Barth de Medeiros e Luiza Borges Lima

Alcides Barth de Medeiros nasceu em 1911, na localidade de Passo do Sítio em Santo
Antônio da Patrulha, filho de José Peixoto de Medeiros e de Florinda Barth de Medeiros.
Quem me contou sua história foi sua filha Lyra de Medeiros Gil, hoje com 70 anos. Tivemos
um feliz encontro em sua residência.
Ela conta que a infância de Alcides de Medeiros foi como a de qualquer criança da época,
sempre muito obediente aos pais, era um aluno exemplar na escola. Parte de sua juventude foi
dedicada ao plantio e fabricação de fumo, acabou descobrindo que essa atividade lhe provocou um
problema de saúde, passou a trabalhar no comércio, montando então um armazém na localidade de
Morro da Boa Vista.
No ano de 1937, casou-se com a jovem Luiza Borges Lima. Com espirito empreendedor o
casal decide mudar-se para a localidade de Catanduvinha, considerando que nesse lugar teriam
maiores possibilidades de expandir seus negócios, quando abriram o armazém denominado: “Casa
Catanduvinha de Alcides Barth de Medeiros, Roupas Feitas, Secos e Molhados, Fazendas e
Miudezas”. Paralelo ao comércio dedicava-se a criação de gado, plantio de arroz e exportação de
rapadura e melado para a fronteira. No período de 1960 a 1964 foi proprietário, junto com seu genro
da “Empresa de Transporte Coletivo Miraguaiense”, fazendo linha de Catanduvinha à Porto Alegre.
Depois de aposentar-se no comércio, continuou com a criação de gado e ativo nas atividades da
comunidade.
Dona Luiza Borges Lima dedicava-se á lida da casa e as atividades do armazém. Sua grande
preocupação era dar à seus filhos um futuro promissor. Queria que eles cursassem o ensino médio e
superior, que naquela época era um sonho difícil de alcançar devido as dificuldades do interior.
Embora com muita luta, ela realizou seu sonho e sentia-se orgulhosa disso, uma mulher realizada.
Era uma grande conselheira da comunidade, tinha um carinho e um amor inexplicáveis pelas
pessoas à sua volta.
As qualidades mais marcantes do casal eram a honestidade e humildade, sempre
preocupados com a comunidade e o progresso da mesma. Atuavam na igreja, no futebol Esporte
Miraguaiense, auxiliavam as famílias mais necessitadas, quer transportando doentes até a “Vila de
Santo Antônio”, emprestando dinheiro ou dando assistência em momentos difíceis como em
falecimentos de familiares.
Mantinham sempre bom relacionamento com seus fregueses e vizinhos, o que o levou a ter
uma grande lista de compadres e afilhados. Ainda hoje são lembrados com saudades, e por serem
tão especiais, foram homenageados com um trecho da estrada da localidade de Catanduvinha com
os seus nomes.